
CARNAVAL SEM PLUMAS.
Jairinho achava que no carnaval tudo era possível. Sua idéia acerca da festa de Baco restringia-se às mulheres da televisão. Belas e sedutoras, verdadeiras gueixas da perdição, principalmente para um garoto do interior como ele.
Morava, onde a mais nova mulher talvez estivesse lá pelos seus cinquenta e poucos anos. Não que a idade seja a antítese da beleza, muito pelo contrário. Mas é que ali, justamente ali, onde Jairinho passava seus dias, a natureza não colaborou. Todas pareciam ter vindo de Marte com suas formas estanhas e estilo pitoresco.
Portanto, Carnaval para um garoto como estes, pobre, magro, sem instrução , morador de uma cidade sem novidades e atrativos e, não preciso explicar aqui o que vem a ser um atrativo numa situação destas, resumia-se aos bailes e desfiles da televisão.
Jairinho contava os dias para o início do Carnaval. Sabia muito bem decorado quais os bailes que iam passar na “caixinha mágica”. Conhecia tudo. Quais rainhas de bateria estavam mais sensuais, mais esculturais, mais e mais... e por aí seguiam suas habilidades televisivas.
Na sexta tem o baile do vermelho e preto. Antes, no pré- carnavalesco, já tinha visto o baile do diabo, no América, o do Monte Líbano . Fôlego incansável. Era baile de cá, mulher de lá, e para coroar ficava estupefato com o Gala G e seus travestis em suas falas tão inteligentes, que até ele gritava, do sofá sebento, porra! mas que bicha doida!! (Para ler o restante clique abaixo. Para retornar clique na seta do I.E ).
Era o devaneio de um mundo irreal, longínquo e brilhante. Fantasia que corria solta em meio aos hormônios descontrolados e vaporizados de um adolescente de cidade pequena. Sonhos e ilusões de fuga? Não, somente brincadeira de um folião mal ajambrado e meio desmiolado.
Junto destes devaneios ficava o Rio de Janeiro . Cidade maravilhosa e cheia de encantos mil. Naqueles dias do ano, era onde o profano vingava. A terra da perdição. Muita violência e com gente mal educada. Tudo muito rápido e sem muito valor. Pelo menos é o que dizia dona Batistinha e dona Mariana, duas beatas que freqüentavam assiduamente a igrejinha da praça. Diziam as más línguas que ambas eram apaixonadas pelo padre Teodorico. Mas isto já é outra estória. Afinal Carnaval, igreja e bacanal era tudo o que pensava o Jairinho. E será que é tudo igual?
Todos os anos era a mesma coisa. Não dava para mudar, pois sonhar era para ele, a coisa mais gostosa que se podia fazer, principalmente porque Jairinho não precisava pagar por isto. Todo o resto era anotado no livro da vida. Às vezes temos saldo, outras muito débito e na maioria do tempo vamos fazendo as coisas por graça e concessão .
A roça depois do carnaval era a outra atividade que acabou por tomar conta do adolescente. Não por vontade mais por imposição natural. Naquela cidade onde a tarefa mais importante era tomar conta da vida dos outros, ficar sem fazer nada era cair em desgraça. Vida de vagabundo não dava para sustentar, embora não faltasse vontade para isso.
A única profissão dos seus sonhos era ser vagabundo de verdade. Conhecer o grande Carnaval do centro do Rio, e se perder por aquelas bandas. Mas não tinha coragem e força. É não pense que para ser vagabundo diplomado é fácil não!! Todo mundo quer ser é o bonzinho da fita. Dá menos perturbação. Como também esta era uma palavra que nosso amigo Jairinho detestava, lá foi ele para sua triste sina de lavrador. Afinal o vô foi da roça, o pai também. Não seria justamente ele o Mandraque da fita a tirar mágica da cartola.
Vivia no campo a sonhar com a cidade das deusas que via na televisão. Mesmo depois de grande e já começando a ter cabelos brancos no peito, continuava com essa perdição. Mania de televisão! Mania de Carnaval imaginado ! Era o que dizia dona esmeralda, mãe de nosso personagem, que faleceu de desgosto do filho não ter casado. Afinal, mesmo nas cidades vizinhas de onde ele habitava, o “nível” das mulheres não era igual ao dos seus davaneios covardes. Também pareciam mulheres meio sem graça e sem sabor. Jairinho era um desses casos típicos de ser humano que devia socializar-se. Mas enveredou para outras bandas ou melhor, bundas e transformou-se num esquisitão.
Vocês devem estar a se perguntar como é que um lavrador de cidade pequena, apaixonado por carnaval de televisão, virou esquisitão . É, a pergunta é boa, mas pouco perspicaz. Nosso carnavalesco passou a procurar e medir a mulher perfeita que coubesse em seus sonhos. De tanto medir, comparar, classificar, catalogar e algumas vezes experimentar, acabou por nada encontrar. Nosso herói Macunaíma não entendeu a absoluta e peremptória impossibilidade de se competir com a imaginação. Esta sempre vence!
Quase chegou a fazer a vontade de sua finada e bem comportada mãe. A moçoira apareceu, mas o casamento não. Este arremedo de vida real teve seu início assim: Um belo dia, quando o trabalho na roça acabou, tomou como de costume a sua cachacinha no bar do Trancoso e seguiu para o Bordel da velhota. É, este era o nome do bordel e da dona, ou pelo menos assim ficou, porque se perguntasse na cidade o nome verdadeiro da Velhota, toda a gente ia responder: Uai? Velhota!
Quando por lá aterrou suas idéias, veio logo a Velhota a lhe dizer:
- Jairinho , temos uma novidade aqui na casa.
_ Velhota, não vai me dizer que trocou as camas!!! _ E pôs-se a rir.
_ Né nada disso, seu bobinho. Temos agora uma atração carnavalesca, vinda direta da cidade grande. Coisa muita fina. Não é para o bico de gente como tu não viu!!!
Foi aí que Jairinho sentiu circular pelo salão com uma desenvoltura ímpar, uma mulher que fugiu a classificação carnavalesca de nosso esquisitão de plantão. Não parecia com nenhuma espécie proveniente realmente daquela região esquecida por Deus! Seus olhos começaram a brilhar, coração a latejar e pernas a desengonçar.
Era Francineide. O nome é estranho mas a mulher não!! Morena alta, coxas grossas, cabelos longos e olhar malicioso. O andar era coisa e tal. Um remelexo que não tinha comparação. Falava bem e usava umas palavras que ele não entendia , mas adorava!! Parecia muito com outra morena que nunca tinha saído de sua cabeça. Era uma que tinha se apaixonado quando a viu em um desses bailes que tanto freqüentou, ou pelo menos pensou que sim. Estava num camarote, dando adeus e beijinhos aos tontos que ficavam babando em baixo. Ele não sabia o nome da figura em questão mais se lembrava com orgulho que ela tinha dito ao entrevistador que era modelo, manequim e artista. Ele não sabia bem o que era isso, mas devia ser algo importante, porque todas as mulheres eram modelo , manequim e artista.
Mas a intenção do casório não durou muito não. Não foi suficiente nem para iniciar o vôo. Depois de uma noite onde ele deu todo o saldo obtido no trabalho de sol a sol, a morenaça fugiu da cidade com o filho bastardo do padre Teodorico. Deu um golpe na Velhota e ninguém sabe onde foi parar. Quando a esmola é demais o santo desconfia, repetia para si de cinco em cinco minutos, o nosso herói carnavalesco moderno.
Assim correram os anos. Jairinho, tranformou-se em Jairo, Jairão e senhor Joca. No entanto, sempre assistindo, comentando e sonhando com o carnaval da telinha mágica.
Bateu as botas o esquisitão, num domingo para ser mais preciso, durante o programa do Faustão. Veio como foi. Nada entendeu, pouco viveu e muito sonhou com bundas, bundinhas e bundões.
Jairinho passou desta para melhor, sonhando sem viver, vivendo sem sentir e sentindo sem saber!! Oxalá esteja a se divertir em um Carnaval celestial, lá no Quinto dos Infernos! Aqui viveu no paraíso dos burros!!!
FIM
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